Tamanho da carga
tributária, arrecadação e eficiência do Estado na administração dos recursos
coletados, para que revertam em bem-estar da população. Esta é uma discussão
espinhosa, que envolve abrangentes interesses e que tem rendido os mais
variados estudos, teorias e doutrinas ao longo dos séculos. Considerando-se o
sistema de livre mercado e utilizando-se a matemática, contudo, fica fácil
perceber que, a partir de determinado ponto, a elevação de impostos produz
queda de arrecadação, em vez de aumento. Um raciocínio simples conduz a esta
conclusão: hipoteticamente falando, se a tributação sobre atividades econômicas
alcançasse 100%, ninguém empreenderia, pois não existiria motivação alguma, já
que todo o fruto do esforço despendido iria parar nas mãos do Estado. Menos
empreendimentos, por seu turno, significa menos pagamentos de impostos. Nos
últimos anos, este assunto voltou à baila com força, muitas vezes em tom
passional, em um período no qual a dificuldade de governos para fecharem suas
contas, de modo geral, vem se agravando. Onde estaria então a tal linha
divisória, a partir da qual seria contraproducente para o Estado, em termos de
receita, continuar aumentando tributos?
A LÓGICA POR TRÁS DO CRESCIMENTO das receitas
do Estado, supondo-se que ele não empreenda atividade econômica alguma e que
todos os seus recursos provenham de impostos sobre a produção, pode ser
ilustrada graficamente. Se o Estado não cobrasse imposto algum, ou seja, em um
regime de zero carga tributária, a arrecadação, por conseguinte, também seria
zero. Quando o governo começa a elevar o peso dos tributos sobre a sociedade,
digamos, para patamares de 1%, 2%, 3%, e assim sucessivamente, a arrecadação
sobe. Por outro lado, se o Estado se apropriasse de todo valor produzido por
meio de qualquer atividade econômica (carga tributária de 100%), o regime deixaria,
forçosamente, de ser de livre mercado, pois caberia ao Estado suprir toda sorte
de bens, serviços e empregos. Neste caso, como dito anteriormente, não
existiriam empreendedores, pois não haveria a possibilidade de lucrar com
qualquer empreendimento, e a receita do governo proveniente de impostos
voltaria a ser zero.
PODE-SE PERCEBER, PORTANTO, que entre um
extremo e o outro há um ponto de inflexão nesta curva, no qual ela atinge um
topo e passa a decrescer (a arrecadação sai de zero, cresce até este ponto
máximo e a partir daí começa a cair). Este topo indicaria, então, o maior nível
de carga tributária que o governo poderia praticar, a fim de maximizar a sua
receita. Esta representação teórica, na verdade, é bem conhecida. Nos anos
1970, ganhou o nome de Curva de Laffer, em homenagem ao economista americano Arthur
Laffer, que desenvolveu o conceito se baseando no princípio hipotético de que 100%
de impostos acarretariam zero de arrecadação. O próprio Laffer, no entanto,
afirma que esta concepção não tem nada de novo e argumenta que tanto nos
trabalhos do polímata árabe (provavelmente da atual Tunísia), Ibn Khaldun, que
viveu no século 14, bem como nos do icônico John Maynard Keynes, pode-se observar
ideias similares.
ECONOMISTAS DAS MAIS VARIADAS matizes concordam
que existe o tal ponto de inflexão, a partir do qual qualquer aumento de
impostos passa a ser contraprodutivo. A discordância se dá é sobre o nível de
taxação em que ocorreria a tal virada. Até os anos 2000, muitos ainda
acreditavam que, em média, e dependendo das peculiaridades da economia em
questão, este topo estaria em torno dos 70% de taxação. Em 2010, porém, um
estudo conduzido pelos economistas Christina D. Romer, que integrou o time de
conselheiros econômicos de Barack Obama, e seu marido David H. Romer, ambos da
Universidade da Califórnia, em Berkeley, contradisse dramaticamente esta
crença. Não obstante os dados analisados sejam dos Estados Unidos, os achados
são relevantes e podem ser estendidos a qualquer economia. A pesquisa se
concentrou em examinar como a renda nacional responde a alterações na carga
tributária. A conclusão foi de que o topo da Curva de Laffer estaria em 33%,
muito abaixo do que expressivo número de economistas presumia anteriormente. Além
do grau de discrepância em relação à antiga suposição, o resultado chamou ainda
mais atenção porque o casal Romer integra a corrente considerada mais à
esquerda do pensamento econômico norte-americano.
AS RAZÕES PARA SE EFETUAR ALTERAÇÕES (reduções
ou ampliações) na carga tributária variam de acordo com as circunstâncias
conjunturais e com o credo político. Assim, as motivações podem advir da
vontade de se estimular a economia, como foi feito após 2008 no Brasil, por
meio de subsídios e isenções diversas. Em contrapartida, elevações nos gastos
governamentais costumam induzir as autoridades, cedo ou tarde, a buscarem mais
tributos para equilibrar as contas. Quando o déficit público se torna
claramente um fator desestabilizador do quadro político-econômico, como o que
se enxerga atualmente no País, a resposta contumaz do governo é mexer na carga
tributária. Há ainda o aspecto filosófico, que opõe os que acreditam em um
Estado mais robusto para promover melhor distribuição de renda e justiça
social, contra os que advogam que quanto maior a máquina estatal, maiores são os
entraves ao bom funcionamento da economia, como a burocracia e a corrupção, o
que penalizaria especialmente as classes de menor renda, dificultando a
mobilidade social.
SEJA QUAL FOR A JUSTIFICATIVA por trás da intenção
de aumento de tributos, no entanto, o fato é que muitos economistas vêm se
baseando no estudo do casal Romer para alertar governantes de que a antiga
receita de simplesmente elevar impostos para solucionar problemas de caixa pode
redundar, na prática, em menor arrecadação. “De acordo com os conceitos vigentes,
se o partido político no poder tem inclinações esquerdistas, isso quer dizer que
ele, a priori, deve defender a ampliação da máquina estatal, ao passo que
legendas supostamente direitistas se empenhariam pela diminuição do tamanho do
Estado. Independentemente da posição doutrinária, porém, todos devem atentar
para o resultado do estudo de Romer e Romer, pois não interessa a ninguém que o
Estado perca arrecadação, enquanto atravanca o desenvolvimento econômico”, pondera
Tim Groseclose, professor de Ciências Políticas e de Economia na Universidade
da Califórnia, em Los Angeles.
NO BRASIL, A CARGA TRIBUTÁRIA tem crescido sistematicamente,
indo de 22,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1986, para 35,42%, no ano
passado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Tributação (IBTF), somente
durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, ela subiu 1,66 ponto
percentual (p.p.), contra um incremento de 1,41 p.p. nos oito anos da
administração Lula e de 3,75 p.p. no período FHC (oito anos). Atualmente, o País
tem a maior porcentagem de impostos em relação ao PIB da América Latina,
superando, inclusive, a média dos países de alta renda, aqueles considerados
ricos. Em 2013, quando a carga alcançou o recorde histórico de 35,7%, a média
das nações desenvolvidas ficou em 34,1%, de acordo com a Organização para Cooperação
Econômica (OCDE). No ranking da entidade, o Brasil ocupa a 15a posição, entre os
países com maior carga tributária do mundo. Está atrás de nações como Dinamarca
(na casa de 48%) e França (cerca de 43%), mas supera potências como os EUA (em
torno de 26%), Japão (cerca de 29%) e Reino Unido (em torno de 35%). No que
tange ao retorno proporcionado à população em termos de serviços públicos de
qualidade, o Brasil segue na última colocação da lista de 30 países elaborada pelo
IBTF, que leva em conta a carga tributária e o Índice de Desenvolvimento Humano
(IDH), da ONU. O ranking, que mostra a eficiência na utilização dos recursos
arrecadados, é liderado pela Austrália, onde os impostos são da ordem de 27,3%
do PIB. O Brasil está atrás de vizinhos como a Argentina (190), que tem a
segunda maior carga tributária da América Latina (31,2%), e o Uruguai (110).
A DEFASAGEM EM RELAÇÃO À ARGENTINA ilustra
muito bem o grau de incompetência brasileira na aplicação dos recursos
públicos. Além disso, o alto patamar dos impostos em países que parecem mais
equilibrados, como o Reino Unido (cerca de 33% de carga tributária e 100 lugar
no ranking de eficiência), mostra que os achados de Romer e Romer são bastante
relativos, mas pertinentes – lembrando que 33% é justamente o limite apontado
no estudo acadêmico. Não restam dúvidas, porém, de que o Brasil tem um Estado
tão ou mais caro que a maioria dos países ricos e tão perdulário quanto os mais
atrasados do mundo. Uma profunda reforma na sua estrutura, portanto, seria mais
do que necessária. Até aí, tudo bem, esta conclusão parece ser hoje pra lá de
consensual na sociedade brasileira. Mas com este sistema político que vigora,
quem no comando se interessa em fazê-la?
Fonte:
JC
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