O Fed como Pilatos.

Não se discute mais que a economia brasileira está submetida a uma onda de estresse com epicentro no mercado financeiro. Ela atinge as economias emergentes em geral, mas com gradações, de marolinhas até vagalhões, sem que esteja clara a força com que chegarão por aqui. Em 2009, segundo o presidente Lula, foram marolinhas. Desde então, a crise originada nos EUA rodou o mundo, vergou a Europa, aproxima-se agora das economias emergentes, e a política econômica no Brasil pouco mudou. Pelo menos em relação ao que a expõe ao risco externo — basicamente, o viés do deficit em conta-corrente e a necessidade de financiamento para cobri-lo, além de girar os papéis do Tesouro. Hoje, conforme o depoimento da nova presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, à Câmara dos EUA, a economia brasileira seria uma das mais vulneráveis. Mas devido ao que denominou de “desenvolvimentos adversos”, sem relação com a lenta volta à normalidade da liquidez do dólar. O alerta do Fed chocou o governo Dilma Rousseff. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, foi acionado a contatar seus interlocutores junto à equipe de Janet, sucessora de Ben Bernanke, para argumentar que o mercado já diferencia o Brasil dos outros emergentes avaliados como os mais frágeis no momento: Turquia (o mais abalado), Índia, Indonésia e África do Sul. Deve ter ouvido que está tudo num gráfico da exposição de Yellen. Trata-se de um índice elaborado pelo Fed que mede a vulnerabilidade de 14 países emergentes, combinando taxas cambiais frente ao dólar com uma mistura de indicadores como o saldo em contas-correntes, o crescimento do crédito, e a relação entre a reserva de divisas e as exportações e entre a dívida externa e o PIB. O gráfico apresentado por Janet abrange o período de 30 de abril de 2013 ao último dia 6. A leitura do tal gráfico indica Coréia do Sul e China sem maiores problemas com o ajuste monetário nos EUA. No extremo inferior, pela ordem, aparecem Turquia e Brasil. O texto lido por Janet afirma que as “economias que aparecem relativamente mais vulneráveis no índice são as que tiveram maior desvalorização cambial” no período. E “o rendimento dos títulos públicos também foi o que mais aumentou”.
Diagnóstico sem firula
A conclusão do Fed: “Essa evidência é consistente com a visão de que a redução do grau de vulnerabilidade econômica é importante, se as economias emergentes forem tornar-se mais resistentes a choques externos, incluindo os resultantes de desenvolvimentos financeiros nas economias avançadas”. Curto e grosso, o que isso quer dizer? Que vai ficar mais difícil financiar os deficits externos, dada a redução do laxismo monetário nos EUA (e da Inglaterra, que tende a diminuir acompanhando o viés do dólar, e da China, o país que mais espichou o crédito desde 2009 e dá sinais de passar por uma crise bancária). No geral, tais deficits resultam da queda do superavit comercial, com as importações avançando sobre as exportações. O Brasil tem deficit fiscal crônico, as contas externas também são negativas, e o consumo corre à frente do PIB há vários anos.
O tombo de R$ 60 bi/ano
Nos cenários do economista Fernando Montero, os problemas aparecem com clareza ao se analisar o excedente de receita tributária gerado pela economia. Entre 2004 e 2011, a receita líquida federal cresceu 7,7% ao ano acima da inflação. Em dinheiro, significa que o governo dispôs de R$ 80 bilhões a mais de receita a cada ano. E agora? Nos últimos dois anos, a receita líquida regular (sem a licitação do campo de Libra e Refis) cresceu 1,7% real ao ano, deixando uma folga de R$ 17 bilhões anual. E isso com a despesa ganhando tração a cada ano ao redor de 9%. O governo Lula teve R$ 80 bilhões para gastar a cada ano (supondo o deficit nominal habitual). A folga caiu para R$ 17 bilhões por ano. Resumo: O governo Dilma Rousseff “perdeu” R$ 60 bilhões de receita/ano, sem equivalência na despesa.
Governo legou a força
A diferença virou deficit fiscal, financiado por papéis do Tesouro vendidos no mercado. E expandiu o deficit externo, já que o gasto público turbina a demanda, parte da qual é atendida com importação (em paralelo à reversão das commodities, reduzindo exportações). Nessa peleja, o BC sobe juros visando moderar a demanda (portanto, a importação e o deficit externo) e atrair hot money para fechar a conta, de modo a que o ajuste não recaia só sobre o crescimento e o emprego. A vulnerabilidade ocorre quando a liquidez se estreita no mundo e o naco da demanda vazado para importações mantém o ritmo de antes. E assim é porque o crescimento está abaixo do potencial, não há muito gasto para cortar sem ferir a lei, o ano é eleitoral e não há a quem apelar, se a política econômica legou a força ao mercado.
Como acalmar os ogros
A conta estimada para o governo se acertar com os ogros do mercado financeiro é da ordem de R$ 45 bilhões, segundo Fernando Montero. É o gasto a ser cortado na Lei Orçamentária Anual de 2014. Mas ela já saiu do Congresso e foi sancionada pela presidente com as despesas mandatórias subestimadas e a receita inflada. Além disso, surge a necessidade de gastos maiores que o projetado, tais como a conta de subsídios ao setor elétrico, que pode dobrar sobre os R$ 9 bilhões estimados. O recurso de segurar emendas parlamentares foi vetado. Dificilmente o governo arranjará nova montanha de receita atípica como ocorreu em 2013 (cerca de R$ 35 bilhões). A via de escape do gasto bancado com repasses do Tesouro ao BNDES implica emissão de dívida que parte do mercado só se habilita a subscrever se tiver mais juros e outra parte, a externa, pode dar com as pernas como alerta o Fed. Mas não é para ficar pessimista. O que esta sendo forçado é a antecipação de reformas que viriam de algum modo em 2015. Se bem feitas, o ajuste pode ser mais brando que depois da eleição.



Fonte: JC

Brasil está em 'clube' de países sob risco monetário, diz 'FT'

Um grupo maior de países emergentes poderia sofrer mais intensamente os efeitos negativos do fim do estímulo monetário nos Estados Unidos, afirmou nesta quinta-feira a edição impressa do jornal britânico Financial Times.

Segundo o FT, Hungria, Chile e Polônia também estariam consideravelmente expostos à decisão do Fed – o Banco Central americano. Inicialmente, os mercados acreditavam que o risco maior pairava sob os chamados "Cinco Frágeis". O termo "Cinco Frágeis", que engloba Brasil, África do Sul, Índia, Indonésia e Turquia, foi cunhado pelo banco de investimentos Morgan Stanley para denominar o grupo de nações mais vulneráveis ao fim do quantitative easing, ou afrouxamento monetário. O jornal britânico acrescenta que Venezuela, Argentina e Ucrânia também correm riscos, mas ressalva que a fragilidade desses países estaria muito mais relacionada às incertezas domésticas do que aos efeitos de um eventual fim dos estímulo monetário nos EUA. Segundo o Banco Mundial, na eventualidade de o ajuste se provar "desordenado", os fluxos financeiros para os países menos desenvolvidos poderiam cair até 80% por vários meses. Em seu relatório, o Banco Mundial afirma que o cenário mais provável é que haja um ajuste suave à redução de liquidez da economia americana. Mas a instituição prevê uma elevação dos juros de longo prazo nas maiores economia do mundo em 2 pontos percentuais. 
Preocupação
Para o Financial Times, a grande preocupação para os investidores é de que haja uma repetição neste ano da turbulência financeira ocorrida nos mercados emergentes em 2013 diante da expectativa de uma decisão do Fed, que ainda não foi concretizada. Em maio do ano passado, o presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Ben Bernanke, anunciou que iria reduzir os estímulos monetários na economia. À declaração de Bernanke, se seguiu uma uma corrida dos investidores para a retirada de recursos dos países menos desenvolvidos.
Por trás disso, existe a expectativa de que, com o fim da recompra dos títulos, o Fed venha a subir os juros, atualmente a um patamar próximo a zero. Com juros mais altos, os títulos americanos ficam mais atrativos – pois oferecem maior retorno – em um país que é sinônimo de segurança para os investidores internacionais. Desde 2009, o Fed recompra mensalmente cerca de US$ 85 bilhões (R$ 200 bilhões) em títulos do Tesouro americano. Os títulos públicos são usados pelos governos como forma de captar o dinheiro que necessita para financiar os gastos públicos não cobertos pela arrecadação de impostos. Em linhas gerais, o investidor "empresta" dinheiro ao Tesouro para recebê-lo depois, acrescido de juros. Ao decidir recomprar esses títulos, o Fed injeta dinheiro na economia, aumentando a liquidez do sistema. Um banco que se desfaça desse ativo pode, por exemplo, usar o dinheiro da venda para conceder empréstimos ao consumidor, estimulando a economia. Parte desse súbito excedente de dinheiro vinha sido usado por investidores para aplicar em mercados onde pudessem obter maiores retornos, como o Brasil, que pratica uma das taxas de juros mais elevadas do mundo. Porém, nos últimos meses, essa tendência vinha sendo revertida. Essa é uma das razões para a valorização do dólar frente ao real, que desde o ano passado, já acumula alta de mais de 15%.



Fonte:BBC Brasil 

Alta dos juros perto do fim.

Apostas dentro do governo, que ganham corpo também no mercado financeiro, são de que Banco Central fará apenas mais dois reajustes na Selic, ambos de 0,25 ponto percentual, nas reuniões do Copom deste mês e de abril. Depois disso, taxa ficaria em 11% até dezembro.

A escalada dos juros básicos da economia pode, enfim, estar se aproximando do fim. Nove meses depois de ter elevado a taxa Selic da mínima histórica, 7,25% ao ano, em abril de 2013, para os atuais 10,5%, em janeiro, o Banco Central (BC) pode estar se preparando para encerrar o ajuste na taxa básica. As apostas dentro do governo são de que autoridade monetária fará apenas mais duas altas na Selic, ambas de 0,25 ponto percentual, nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) de fevereiro e de abril. Com isso, a Selic chegaria até dezembro em 11% ao ano, patamar ainda mais elevado que os 10,75% entregues à presidente Dilma Rousseff pelo seu antecessor e mentor político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apostas pela redução na dose de juros também ganham corpo no mercado financeiro. Diariamente investidores negociam contratos com remuneração em juros, na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Essas operações tentam antecipar a tendência da Selic para os próximos meses e anos. A curva desses juros negociados mostrou ontem que 72% das apostas ainda são de uma elevação da Selic de 0,5 ponto percentual, na reunião do Copom marcada para o fim de fevereiro. Na sexta-feira, no entanto, o percentual de contratos que apontavam para elevação de 0,5 ponto era maior, de 82%. A redução no ritmo de ajuste seria o primeiro passo para o fim do ciclo de juros, na visão de um economista-chefe de um grande banco de investimentos. Nas últimas seis reuniões, o BC decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual. Havia uma expectativa de que a dose de juros pudesse ser reduzida em janeiro. Mas, à época, os dados recentes da economia apontavam para uma piora da inflação, e não uma desaceleração, o que inviabilizava uma redução nos juros. Pesou para a decisão do BC de manter o ritmo de ajuste em 0,5 ponto, diz uma fonte do governo, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de dezembro, que registrou variação de 0,92%, a maior para o mês desde 2002. Em janeiro, a escalada da inflação foi de 0,55%, quando o conjunto de apostas do mercado financeiro apontava para uma elevação de 0,6%. Essa desaceleração, disse a fonte, combinada com a produção industrial de dezembro, com queda de 3,5% – também bem abaixo do que esperava o mercado –, indica que a dose de juros já aplicada pelo BC desde abril de 2013 pode ter surtido o efeito desejado de esfriar a economia e, com isso, forçar uma queda dos preços. A desaceleração da inflação já foi percebida pelos analistas de bancos e corretoras, que reviram ontem para baixo as projeções para o IPCA ao longo do ano. As apostas, agora, são de que o parâmetro oficial para o custo de vida no País acumule alta de 5,89% em 2014. Há uma semana, as estimativas eram de inflação de 6%, segundo divulgou o BC no boletim semanal Focus. O mesmo relatório traz uma avaliação mais pessimista para os juros, ao indicar que a alta da Selic será maior do que crê o governo. O conjunto de apostas de 100 corretoras e bancos aponta para duas novas altas, sendo uma de 0,5 ponto neste mês e outra de 0,25, em abril. As estimativas das cinco instituições que mais acertam seus cálculos, chamadas de Top 5, mostra um pessimismo menor com os juros. Esses analistas prevêem exatamente o cenário que o governo discute com reservadamente nos bastidores: duas altas de 0,25 ponto percentual, encerrando o aperto de juros em 11% ao ano. O que pode prejudicar esse plano de redução nos juros, diz a economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendência, é a trajetória ainda preocupante do dólar. Em 15 de janeiro, data em que o Copom decidiu elevar a Selic em 0,5 ponto, para os atuais 10,5% ao ano, o dólar fechou o dia cotado a R$ 2,35. De lá para cá a moeda registrou seguidas altas, elevando os riscos de repasses do dólar para a inflação. Ontem ocorreu nova elevação, de 1,13%, com a moeda norte-americana sendo cotada a R$ 2,406 para a venda. “Ainda há muita volatilidade nos mercados, e isso é algo que ainda não pode ser descartado pelo BC”, disse.




Fonte: JC

INFLAÇÃO - IPCA de 0,55% em janeiro fica abaixo das estimativas.

Depois de um início de ano recheado de dados ruins da economia brasileira, a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 0,55% em janeiro – contra 0,92% em dezembro – abaixo do intervalo das estimativas dos analistas do mercado financeiro, veio como um sopro de vento favorável para a área econômica da presidente Dilma Rousseff. No front da inflação, o IPCA foi a menor taxa para janeiro desde 2009 e ficou 36% menor do que no começo de 2013, dando uma trégua na espiral negativa que abateu a economia brasileira em 2014. O resultado surpreendeu positivamente os economistas do governo, que acreditam que a queda do IPCA acumulado em 12 meses de 5,91% para 5,59% deverá ajudar a melhorar o ambiente econômico e as expectativas em torno da evolução da inflação. Na avaliação da área econômica, o início favorável para a inflação deverá reforçar a confiança do consumidor, que poderá ter mais espaço no orçamento para aquisição de bens duráveis e semiduráveis. O resultado também deverá permitir maior demanda por crédito, dado o cenário de queda consistente nos índices de inadimplência, com baixas taxas de desemprego. O que mais chamou a atenção da equipe foi a desaceleração significativa dos preços livres, com queda de 0,92% em dezembro para 0,6% no primeiro mês do ano. Em janeiro do ano passado, os preços livres cresceram o dobro: 1,2%. O patamar ainda é elevado, mas o resultado de janeiro da inflação de preços livres foi considerado muito positivo, já que sazonalmente é um mês de maior pressão. A inflação de alimentação e bebidas também começa o ano pressionando bem menos o IPCA em relação ao começo de 2013. Outro dado observado pelo governo como favorável para as expectativas inflacionárias foi a diminuição do ritmo de alta dos núcleos, que se mostraram comportados na avaliação dos técnicos. A média dos núcleos passou de 0,71% em dezembro para 0,53% em janeiro. Em janeiro do ano passado, estavam variando entre 0,63% e 0,87%. A desaceleração da inflação de serviços, de 1,16% para 0,47%, também mereceu destaque, porque é um dos itens que mais têm pressionado o IPCA nos últimos anos. O dado mais negativo ficou por conta do índice de difusão da inflação. Apesar do valor ainda elevado, o índice caiu de 75,1% para 71,6%.
Superávit
Com o bom início de ano para a inflação, o governo conta agora com a divulgação do superávit primário das contas do chamado Governo Central de janeiro favorável para ajudar na coordenação das expectativas. No trimestre de novembro a janeiro, o superávit será recorde, o que marcará, na avaliação do governo, uma nova fase de bons resultados fiscais, que vai contribuir para melhorar a avaliação dos analistas e investidores. Além disso, antes da divulgação do resultado fiscal, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai anunciar o contingenciamento de despesas do Orçamento e a meta fiscal de 2014. O anúncio será feito até o dia 19, quando Mantega viaja para a reunião do G-20, na Austrália, onde (é o que se espera) desembarca já com números mais robustos para mostrar. A avaliação interna é de que o ambiente já está mais amigável e o Brasil, aos poucos, começa a se diferenciar dos outros países no cenário internacional.



Fonte: JC

Apagão de ambições.

Durante décadas, desde os anos 1950, a primeira grande virtude do Brasil apresentada por funcionários do governo de turno em reuniões com empresários estrangeiros era a ampla disponibilidade de energia barata — argumento valorizado depois dos dois choques de petróleo, entre 1973 e 1979. As grandes usinas hidrelétricas construídas e em construção, sobretudo no período autoritário, davam respaldo ao que se via como trunfo imbatível num mundo sedento de energia. Sem usinas como Itaipu e Tucuruí (as grandes) ou Ilha Solteira e Paulo Afonso (médias), não teríamos um parque industrial ainda dos mais diversificados do mundo e o país não ocuparia a 8ª posição no ranking global da manufatura em 2012. Energia é o insumo crítico do desenvolvimento. Quem não a tem correndo livre pelos cursos d’água, e isso continua a riqueza potencial no Brasil, ou brotando do solo (petróleo, carvão, gás), só com muita inteligência acumulada pôde desenvolver-se, como Japão,
Alemanha e Coréia do Sul.
Hoje, com a palavra apagão outra vez nas manchetes e hidrelétricas caçadas por lobbies ambientais — como se termoelétricas que suprem a falta de energia queimando óleo combustível, carvão mineral e gás emitissem aromas silvestres —, o assunto voltou à ordem do dia. Os críticos acusam o governo de imprevidente, que reage lembrando o racionamento no período FHC. E todos emudecerão tão logo cheguem as águas de março fechando verão. E, como de outras vezes, sem que ninguém que importe à discussão fale do essencial: a necessidade de energia farta e acessível para o desenvolvimento do país. Não é o óleo do pré-sal, cujo destino é gerar as divisas de que a economia se ressente, sobretudo se voltar a crescer pouco mais. Nem as termoelétricas, caras e poluentes, são solução. Elas entraram na matriz energética como um estepe para momentos de pico de consumo, depois do racionamento de nove meses até março de 2002. Aos poucos, o provisório se tornou permanente, e é o que dá para contar em momentos de falha técnica nos linhões de transmissão ou picos de consumo, causas prováveis do apagão desta semana. É certo que a construção de hidrelétricas foi retomada, mas em ritmo lento, criminalizada por ambientalistas, acossada pelo Ministério Publico Federal, e sem a coesão anterior de que o progresso depende delas.
Milhagem do BC e BNDES
Desde o ocaso dos "barrageiros", o presidente do Banco Central se tornou o personagem mais habitual em encontros com investidores, o que diz muito sobre a essência de nosso desenvolvimento. Aprecia-se mais nesses eventos exposições sobre a política monetária e fiscal (ambas conectadas ao estoque de dívida, representativa de eventos e situações passadas), que cenários de oportunidades no Brasil. Isso mudou um pouco com a retomada dos projetos de infraestrutura, na pegada do roteiro de obras do PAC, e vem ganhando tração com as concessões ao capital privado de estradas, aeroportos, ferrovias, portos, que estão andando, apesar do tempo perdido e da descrença dos críticos. A milhagem de voos internacionais do presidente do BNDES já se rivaliza, se é que não supera, com a do colega do BC.
É pouco o que se faz
Não fossem tais investimentos estruturantes, ninguém estaria dando ouvidos aos cenários, normalmente oficiais, em que o país desponta com condições competitivas em relação às economias emergentes de um modo geral (afora a China, já potência industrial e financeira). Mas o investimento público é baixo, cerca de 2% do PIB, menos que a metade da média investida por outros emergentes e abaixo do que é preciso para a produção não estacionar em gargalos — como as filas de caminhão de 50 km ou mais levando a safra agrícola aos portos, navios parados por mais de uma semana esperando cais para atracar, aeroportos congestionados, insegurança energética. Cada um desses gargalos tem solução, várias estão em curso. Mas falta muito mais.
Plantar antes de comer
O empresário Pedro Passos, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, sente falta de planejamento de longo prazo, um horizonte a orientar planos, projetos e investimentos. O governo fechado à discussão com o investidor de raiz, no sentido de que não visa o lucro rápido da arbitragem com juros e moedas, mas o resultado operacional, contribui para o sentimento de desalento. Se o mercado pressiona por meta fiscal, o investidor em bens reais espera que o governo se posicione sobre os lobbies que emperram a geração de energia. Economistas sugerem moeda fraca, expediente que deprecia os salários. O investidor antenado fala de acesso a novas tecnologias. Uns tratam do prato para a boca. Outros do que plantar antes de comer. É um menu de opções. Falta escolher e levar à mesa.
Da matriz para o tripé
Sem confiança não há investimento, já dizia Keynes, lembrado pelo consultor sênior da LCA, Carlos Eduardo Gonçalves, em ensaio sobre se o país é "frágil" e o que isto significa. É pertinente lembrar o parecer desse inglês notável, ícone para os adversários do consenso neoliberal e admirado pela presidente. Ele acha que Dilma entendeu e que "tentará aproximar-se do ‘tripé’ e se afastar um pouco da ‘matriz’". O "tripé" reúne a trindade do superávit primário, câmbio flutuante e meta de inflação. A "nova matriz" mexeu nesse layout. O mercado rosnou, o governo recuou (pois dependente de fundos para financiar seus deficits e rolar a dívida), e começou um processo de desgaste que contaminou o ânimo empresarial. O nó, diz Gonçalves, é que, se subir a Selic sai "barato", pois mexe pouco com a eleição, apertar o gasto "é caro", já que mais visível à sociedade, além de demandar "mudança de equipe". Mas, diz ele, um sinal só é crível se custoso para o emissor. O jogo está pesado para Dilma.



Fonte: JC

BC quer trazer mais investimentos estrangeiros ao país.

Entrou em consulta pública medidas para facilitar operações e reduzir custos que investidores têm ao trazer recursos ao Brasil.

O Banco Central (BC) estuda formas de estimular os investimentos de estrangeiros no país. Anunciou nesta quarta-feira que está em audiência pública um projeto para que debêntures e letras financeiras de empresas brasileiras sejam negociadas no exterior. Atualmente, apenas ações podem ter Depositary Receipts (DRs). É um “recibo”, que espelha uma ação das companhias, e são negociados fora do Brasil. E o BC ainda quer eliminar travas para a aplicação em renda fixa e na Bolsa de Valores. Hoje, um estrangeiro – que mora ou não no Brasil – e que tem um conta corrente aberta em um banco daqui precisava fazer duas operações de câmbio se quisesse aplicar seus reais. Teria de converter o dinheiro em dólares para tirá-lo do país e transformar em real de novo para fazer o investimento em ações ou renda fixa. Se a resolução for aprovada, essa burocracia acabará. Isso reduz o custo do investimento e torna o mercado mais atraente para o estrangeiro. Em março de 2010, o Banco Central já tinha feita a mesma coisa para estimular o investimento para o setor produtivo e o empréstimos de empresas. Os interessados poderão encaminhar sugestões e comentários até 07 de abril de 2014. “A proposta busca simplificar e conferir maior clareza às disposições, eliminando comandos redundantes e prescindíveis, e otimizando o envio de informações aos reguladores, dessa forma contribuindo para a redução dos custos de observância”, diz a nota divulgada pelo Banco Central na noite desta quarta-feira.



Fonte: JC

Crise?

O assunto que tem dominado o noticiário econômico é a chamada crise dos países emergentes. Com sinais de recuperação mais sólida da economia norte-americana, espera-se que os emergentes venham a receber um influxo menor de capitais. Assim, esses países terão que reduzir seus deficit externos, com exportações maiores e importações menores, o que requer que suas moedas se enfraqueçam relativamente ao dólar. Esse processo guarda paralelos incômodos com o observado a partir de meados dos anos 1990, quando o aperto monetário nos EUA contribuiu para uma onda de desvalorizações, inicialmente no leste asiático, cujos efeitos foram particularmente destrutivos. Vários países da região sofreram recessões bíblicas e as ondas de choque acabaram se propagando para todo o universo emergente, num fenômeno até então desconhecido de contágio financeiro. A crise russa de 1998 e o abandono do câmbio administrado do Brasil em 1999 se devem, entre outros fatores, também à propagação daquele terremoto original. Não é acidente, portanto, a reação de mercados financeiros à (perspectiva de) alteração da política monetária americana. Quando o mamute se ajeita, a loja treme. Isto dito, em que pesem certas semelhanças ao ocorrido então, há diferenças substantivas. Para começar, enquanto no final dos anos 1990 a imensa maioria dos países emergentes adotava regimes de câmbio administrado, hoje, pelo contrário, moedas flutuantes predominam. Duas implicações são importantes. Em primeiro lugar, o regime flutuante costuma desestimular a tomada de empréstimos externos por parte de empresas (e famílias), pois o risco de desvalorização (portanto aumento da dívida em moeda nacional) é elevado. Já sob câmbio administrado é comum o oposto: a percepção de estabilidade da taxa de câmbio incentiva a formação de elevados passivos externos. Assim, quando a desvalorização ocorre, em geral é acompanhada de crise financeira e forte queda do produto. Em segundo lugar, quando a taxa de câmbio é administrada, os bancos centrais relutam em permitir a desvalorização (até pelo motivo acima), o que os obriga a elevar fortemente a taxa de juros para impedir a fuga de capitais, com efeitos negativos sobre o PIB. Caso, porém, a taxa flutue, o BC não tem a obrigação de defender a moeda, apenas moderar o impacto da desvalorização sobre os preços domésticos, o que tipicamente requer movimentos de taxas de juros bem mais modestos do que os necessários para manter uma paridade ameaçada pela mudança de rumo dos fluxos de capitais. Taxas de câmbio flutuantes, portanto, ajudam a "isolar" a economia doméstica das alterações do ambiente externo. Adicionalmente, escaldadas precisamente pela crise de 1997-99, economias emergentes acumularam uma grande quantidade de reservas, o que também ajuda a mitigar as ondas de choque oriundas da reorientação da política monetária americana. Nesse aspecto, parece exagero comparar o atual processo ao ocorrido no final dos anos 1990. A desvalorização das moedas emergentes, mais que sinal de fraqueza, é parte central da funcionalidade do regime. Isto dito, não decorre do exposto acima que todos os emergentes estejam bem. Há divergências importantes, que resultam das políticas adotadas durante os anos de capitais abundantes. Países que mantiveram políticas sólidas, controlando gastos e mantendo a inflação na meta, hoje conseguem atravessar a turbulência de forma muito mais suave. Quem, por outro lado, desperdiçou a bonança com políticas equivocadas agora paga o preço do descontrole, como é claro nos casos de Argentina e Venezuela. Já no Brasil a falta de cuidado com a inflação nos últimos anos vai nos custar ainda mais. Partindo de inflação alta e expectativas idem, o BC terá que trabalhar mais duro para evitar os efeitos inflacionários da desvalorização. Não foi, como bem sabem os 18 fiéis, por falta de alerta.



Fonte: A. Schwartsman/Folha SP

Remédio (paliativo) para superação de crises.

 Número de processos de recuperação judicial, que substituiu a concordata, cresce no País. Especialistas explicam, no entanto, que esta nem sempre é a melhor opção.

Dívidas se acumulando e o caixa minguando. Empréstimos em sequência e, por fim, o veredicto de que não é possível continuar. Esse é um dilema que muitos empresários encontram quando o planejamento não segue o esperado – ou quando não há um – e a falência parece inevitável. Um instrumento, no entanto, parece a luz no fim do túnel. De acordo com especialistas, a recuperação judicial pode ser uma ferramenta útil para algumas empresas em dificuldade, mas a regra não se aplica a todos os casos. Antes conhecida como concordata, a recuperação judicial foi instituída pela Lei de Falências e Recuperação de Empresas (LFRE), de 2005. O objetivo é preservar a função social das companhias em dificuldades, ou seja, os empregos que gera, seu papel na economia e diminuir os prejuízos causados a terceiros por conta de uma eventual falência. Nestes processos, a companhia apresenta um pedido à Justiça, apresentando alegações sobre as razões de não conseguir se sustentar. Após ser autorizada pela Justiça, a empresa tem seis meses para elaborar um plano de recuperação, que deve conter um acordo com todos os credores, que precisam aceitar a suspensão da execução das dívidas. Na prática, a recuperação judicial é um fôlego a mais para que a companhia consiga se reerguer. “A recuperação judicial, antes de ser algo vantajoso, deve ser vista como um remédio para recuperar empresários que estejam em crises superáveis”, explica o advogado do escritório Gonçalves, Macedo, Paiva & Rassi Advogados (GMPR), Leonardo Honorato Costa, enfatizando que o processo só é válido para empresas que efetivamente podem sair do atoleiro. “A empresa pode se valer da recuperação judicial para que consiga respirar, financeiramente, até que se concretize a remediação”, completa Honorato.
Plano
O remédio definitivo, segundo o especialista, pode ser qualquer ato legal que restaure a saúde do negócio, o que inclui desde prazos e condições especiais para o pagamento das dívidas e obrigações vencidas até outras questões como o aumento do capital social da empresa. “O grande desafio é construir um plano de recuperação que seja agradável à maioria dos credores, pois a rejeição do plano implica em sua falência”, explica Honorato. Mesmo que tenha o aval da Justiça e consiga elaborar um plano aceito, a recuperação ainda sim pode não ser um bom negócio. “O primeiro obstáculo são os custos. A empresa está em dificuldade e ainda precisará arcar com peritos, administradores, economistas e contadores”, enumera o sócio do escritório Hannud & Velloza Advogados, Mauro Hannud. “Em paralelo, a companhia precisa de caixa para arcar com despesas de pessoal e tributos para continuar funcionado. É importante lembrar que, nessas horas, o acesso ao crédito fica comprometido, já que a empresa assume na Justiça que está em dificuldades”, completa. Hannud lembra que nem todas as dívidas são incluídas no processo. “Impostos não são atingidos, tendo a empresa que continuar pagando-os. No caso de passivos trabalhistas, o valor deve ser quitado em até um ano.” Outro tipo de débito que não entra na recuperação são aqueles com garantias reais. “Débitos com bancos normalmente incluem alienação fiduciária ou hipoteca. Estes, mesmo com a recuperação, podem ser executados”, conta o sócio do Hannud & Velloza Advogados. Cientes disso, bancos têm adotado cada vez mais exigência desse tipo como garantia, o que pode resultar na perda de ativos como imóveis, máquinas e veículos. “É como o financiamento do carro. Não pagou, o banco toma”, afirma.
Negociação
A boa e velha negociação diretamente com credores, no entanto, nunca pode ser descartada, o que evita a recuperação judicial. “O empresário pode recorrer ao próprio mercado, sendo esta a forma mais natural de superação de crises”, explica a professora de direito empresarial da Faculdade Arnaldo Janssen, Cristiane Rêgo. “Assim, o empresário devedor pode tentar fazer um acordo com seus credores por meio, por exemplo, de parcelamento ou abatimento da dívida”, diz a especialista, citando que alienação de ativos também é uma opção. Apesar das limitações, os pedidos de recuperação vem aumentando no Brasil. “O número vem crescendo desde 2005, mas poucas são as empresas que se salvam. Na média, menos de 10%. Muitas usam a recuperação judicial para renegociação com credor ou como um passo anterior à falência”, explica o diretor geral da Naxentia, especializada em processos de reestruturação, fusões e aquisições, Vincent Baron.



Fonte: JC

Gastando no escuro.

Responsável pelo maior espaço do noticiário econômico, maior até que o atribuído à inflação, o resultado das contas fiscais do setor público, que expressam os gastos dos governos com o que arrecadam das pessoas, empresas e bancos, deveria ser uma satisfação sobre o destino dado ao dinheiro dos contribuintes. Não é o que tem sido. Pouco se fala sobre o retorno social e a produtividade do dinheiro arrecadado e devolvido entre as rubricas da Lei Orçamentária Anual. Mas os interesses grudados no orçamento de receitas e despesas do governo federal, dos estados e dos municípios (entre funcionários, políticos, prestadores de serviços às repartições, detentores de papéis do Tesouro, empresas atendidas com subsídios e isenções) se debruçam com lupa sobre cada rubrica. E estrebucham se algo lhes desagrada. Fazem bem. Quem só contribui e não cobra é que faz mal. O orçamento é lei nos três níveis da Federação, a única votada a cada ano. O orçamento federal chama mais atenção pelo seu tamanho — quase R$ 1 trilhão este ano, cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2014 —, por repassar (conforme a Constituição) parte do que arrecada para os entes regionais e por abrigar um sem número de compromissos e passivos contingentes (Previdência, setor elétrico, subsídios de empréstimos de bancos estatais) bilionários, que serão reconhecidos algum dia. O finado BNH, por exemplo, deixou um rombo a ser coberto em 30 anos, em parcelas anuais, até 2027. Passivos assim, além de diferenças mal explicadas num intervalo de poucos meses, intranquilizam os “sócios” do Estado. E são muitos. O setor público equivale a mais de 40% do PIB. As transferências de renda só com dinheiro federal beneficiam 76 milhões de pessoas, 38% da população total, sem incluir na conta o funcionalismo público. Tais gastos não têm muita precisão. Segundo o economista Fernando Montero, o orçamento de 2013 previa um deficit do INSS de R$ 36,2 bilhões. Foi de R$ 49,9 bilhões (desvio de 38%). Gasto com seguro desemprego e abono de R$ 40,3 bilhões. Deu R$ 44,2 bilhões. Nenhum repasse à conta de subsídios da área elétrica, e foram repassados R$ 7,9 bilhões. Em apenas três rubricas de gastos obrigatórios (ou seja, impostos em lei), houve um erro de R$ 25 bilhões. Desvios com tal grandeza desmoralizam o contador. Nem se fala dos desperdícios.
Juro supera a economia
Entende-se a pressão dos credores da dívida pública — bruta, de R$ 2,7 trilhões em 2013 (correspondendo 57,2% do PIB), e líquida (que exclui créditos da União, tipo Refis, e aportes do Tesouro à banca pública), de R$ 1,6 trilhão (33,8% do PIB). Para o secretário de Política Econômica da Fazenda, Márcio Holland, a dívida líquida “está caindo”, e a bruta, “está estável”, porque, diz, nos últimos 15 anos foram feitos os “maiores superávits primários do mundo”. O tal superavit é a parte economizada do gasto para pagar juros da dívida pública. Mesmo com ele, o orçamento fechou 2013 com deficit (chamado de “nominal”) de R$ 157,5 bilhões, equivalente a 3,28% do PIB, vindo de 2,48% em 2012. Foi o pior resultado desde 2002, parte devido ao fardo dos juros, que chegou a R$ 248,8 bilhões (5,18% do PIB, contra 4,87% em 2012), apesar das taxas mais baixas da Selic.
E os gastos só espicham
Se o deficit nominal sobe, significa que o superávit primário não foi suficiente. Isso implica aumento da dívida. Mas ela não está caindo, segundo o secretário Holland? Sim. Mas, como diz Montero, a queda nos três anos de governo Dilma se deveu não bem à economia de gastos, mas à depreciação cambial sobre o estoque da dívida. Além disso, do superavit primário de R$ 91,3 bilhões em 2013 (1,9% do PIB, o menor desde 1998, versus 2,39% em 2012 e a meta revisada de 2,3%), a União entrou com R$ 75,3 bilhões (1,57% do PIB, cabendo o resto, 0,35%, a estados, municípios e estatais). Mas quase metade da parte federal veio de receitas não recorrentes (campo de Libra, Refis arrumado às pressas em novembro), além de gastos adiados.
Mercado pauta a agenda
A marcação cerrada do mercado sobre o resultado fiscal se explica não pelo risco de solvência do país, mas porque ele define o curso da dívida, portanto, a taxa de juro referenciada na Selic, que, em princípio, observa a inflação. Mas um número fiscal ruim significa também a contribuição do governo sobre a demanda, que interfere na inflação. Mais inflação implica mais juros, pela ótica do BC. O mercado financeiro cuida do que é seu. Quem não cuida somos nós, contribuintes, especialmente pela falta de indicadores que permitam avaliar a produtividade do gasto. Exemplo: se há gente demais atrás de mesas na área de saúde e de menos para atender os pacientes. Sem transparência, os lobbies se impõem, e os serviços se decompõem.
Os black blocs fiscais
A expectativa se volta para a meta do superavit primário de 2014, função do gasto público que será contingenciado. O governo promete anunciá-la até dia 20. O corte deve ter mais ar que gasto real, o grosso do qual é engessado em lei, além de sobrar receita e faltar despesa na previsão orçamentária, segundo a análise de Montero. Outro complicador é a contribuição de estados e municípios para o superavit primário. Nos últimos dois anos, avalia, enquanto o gasto federal cresceu 1,53 ponto de percentagem do PIB, o de municípios e estados avançou só 0,24 p/p. Visto pela receita, a federal aumentou 0,84 p/p do PIB, e a dos entes regionais perdeu 0,21 p/p. Entre os níveis federativos, assim, é a União quem está melhor. Mas, se for cortar para valer, o que há é o dinheiro do investimento, apesar de prioritário. Outros gastos atrairiam a ira dos black blocs fiscais. Certo é que nada do que se disser sobre gasto público até outubro deverá ser considerado depois. Meta hoje é ganhar tempo, e olhe lá.



Fonte: JC

Competência que vale ouro para as empresas.

Muito valorizado por headhunters, resiliência é a capacidade de lidar bem com problemas, transformando experiências negativas em aprendizado para a carreira.

Quem não conhece casos de pessoas, famosas ou anônimas, que passaram por situações de extrema dificuldades e, mesmo assim, mantiveram a postura combativa, conseguindo dar a volta por cima? No mercado de trabalho, essa capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos e adaptar-se às situações, transformando experiências negativas em aprendizado e oportunidade de mudança, ganhou a alcunha de resiliência, termo “emprestado” da física. Hoje, essa é uma das características e habilidades mais procuradas nas empresas e cada vez mais valorizadas por headhunters. Nos dicionários, a definição de resiliência é a propriedade de que são dotados alguns materiais de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse, sem ocorrer qualquer tipo de ruptura. Há algum tempo, entretanto, o conceito deixou o campo da física e ganhou importância como atributo pessoal em processos de seleção e de avaliação profissional. “Ser resiliente é ter a capacidade de enfrentar crises, traumas, perdas, graves adversidades, transformações e desafios, elaborando as situações e recuperando-se diante delas”, explica o presidente da Sabbag Consultoria e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Paulo Yazig Sabbag. Pesquisador e um dos maiores especialistas em biofeedback do Brasil, método que avalia em tempo real o funcionamento do sistema emocional dos indivíduos e propõe dinâmicas para deixá-lo mais equilibrado, Marco Fábio Coghi observa que, no dia a dia do mercado de trabalho, a resiliência faz mesmo diferença. Para ele, quem tem dentro de si o conceito tem mais capacidade de passar por situações críticas e se recuperar, sem se deprimir ou reduzir a produtividade. “O ser resiliente, por ter um maior equilíbrio emocional, consegue usar suas habilidades e interagir de forma mais amigável com as pessoas”, afirma.
Desenvolvimento
Uma das técnicas que vem sendo apresentada e que vem conquistando resultados para o desenvolvimento da resiliência nos indivíduos é o biofeedback. “O treinamento visa reduzir a hiperatividade emocional das pessoas, trazendo-a mais perto da realidade”, diz Coghi. “O mundo contemporâneo precisa de pessoas que lutem e sejam competitivas e que, ao mesmo tempo, mantenham uma condição psicológica tranquila em face dos acontecimentos”, acrescenta. A boa notícia, de acordo com a sócia-fundadora da consultoria Unique Group, Alexia Franco, é que a resiliência pode ser desenvolvida em qualquer fase da vida. Segundo ela, existem graus variados de como uma pessoa consegue lidar com o estresse. “É preciso, portanto, que cada indivíduo analise sua própria condição em relação a esta competência. Só assim é possível buscar meios para desenvolvê-la”, afirma. Para Alexia, cada vez mais a resiliência será uma qualidade a ser incorporada ao comportamento humano, seja para a vida pessoal ou profissional. “No passado, dizia-se que as coisas tinham um tempo diferente para acontecer. Hoje, tudo é imediato. Então, os profissionais precisam desenvolver a capacidade de se entender, olharem para o ambiente e reunirem forçar para reagirem a ele”, avalia. De acordo com a especialista, ninguém é resiliente sozinho. “A interação com outras pessoas é fundamental para superar situações difíceis. A resiliência depende de fatores externos como educação e família”, afirma Alexia. “A comunidade onde crianças e adultos vivem pode ajudar a sublimar traumas e compor pessoas resilientes, pela energia vinda dessa interação”, completa. Para se tornar uma pessoa resiliente, segundo Alexia é preciso estar aberto a novos conhecimentos e, principalmente, conhecer-se. “Ser resiliente auxilia no crescimento profissional, já que, no exigente mundo corporativo atual, quem pretende ter uma carreira de sucesso passará por inúmeras situações adversas”, diz.
Mercado de trabalho
Cada vez mais empresas buscam funcionários que sejam resilientes, que suportem bem a pressão e as cobranças, além de serem flexíveis e que saibam sempre usar a criatividade para resolverem problemas. Para Marco Fábio Coghi, os altos níveis de cobrança por resultados e a competitividade presente nas organizações justificam a necessidade de pessoas resilientes no mercado de trabalho. Ainda assim, as empresas não procuram apenas funcionários com essa competência. “Na verdade, as organizações também desejam desenvolver essa característica para serem capazes de enfrentar crises e saírem delas renovadas e fortalecidas”, afirma o especialista em biofeedback. “Se os executivos que tomam decisões são resilientes, elas conseguem guiar a empresa em épocas de crise, pois aprendem com os erros e conseguem superar problemas. E ainda servem de modelo aos funcionários. Já se fosse ao contrário desmotivariam a equipe”, acrescenta Coghi. Na avaliação do presidente da Sabbag Consultoria, Paulo Yazig Sabbag, são inúmeras as vantagens para o mundo corporativo em ter profissionais com essa competência. “Organizações que tem conselheiros, dirigentes e líderes de projetos estratégicos com elevada resiliência se comportam como se a própria organização a tivesse também”, avalia o especialista. De acordo com Sabbag, as empresas que possuem líderes com essa capacidade são capazes de enfrentar crises, grandes mudanças e apresentam maior efetividade nos projetos. “Este, portanto, é o benefício da resiliência para as organizações do mundo corporativo. Eles se tornam menos vulneráveis, pouco resistem a mudanças e apresentam enorme dinamismo”, diz.



Fonte: JC